Um mergulho... Agora me lembro de uma música do Arnaldo Antunes: “debaixo d’água era tudo mais bonito só faltava respirar...”. Eu também viveria em baixo da água, não para sempre, mas nos momentos em que é difícil de respirar! O sopro, o que nos faz viver, a respiração... Às vezes falta o ar fora da água também.
Nem sempre percebo. O peso acima da média me cansa e o ar falta constantemente. Qualquer ação ofega a respiração. O menor gesto possível. Mas tem horas em que o pensamento me força a realizar profundos suspiros. É uma tentativa de buscar um alívio, por instantâneo que seja à agonia, ao sentimento de sufoco.
Fico pensando como era no ventre de minha mãe. Em baixo da água, mas respirando. Que fantástico é Deus, quão perfeita é sua criação. Mas como mesmo nos lembra a música, chega a hora em que os pulmões recebem o sopro da vida, e isso dói. A medicina descreve esse momento como uma dor profunda ao bebê. Nascer e sentir dor. Paradoxalmente intrigante.
Crescer também dói. Crescer sufoca. Aí se tem que buscar aquele restinho de ar reservado para esses momentos. Uso tanto o meu que tenho medo de acabarem os suprimentos. Vivo buscando novos ares. Não é à toa que mudei tanto de cidade. Não por decisão minha, mas já no meu primeiro ano de vida mudei-me para Paulistana, meus pais decidiram isso.
Quando criança gostava de brincadeiras de tirar o fôlego. Sempre correndo, pulando corda (foguinho), pulando amarelinha. Escondendo-me para meus irmãos não me encontrarem e não me levarem para casa. Quando eu tinha que ir chorava até perder o ar. Ficava roxa. Chorar no faz virar rocha.
Já fiquei sem ar de vergonha também. Fransquinho. o pai de uma amiga de infância, Flávia, tinha uma Kombi vermelha e branca. Aos domingos nós passeávamos. Um dia, para não me atrasar e não perder o passeio me vesti rapidamente e esqueci-me de colocar a calcinha. Meu Deus, veja só. No meio do passeio eu me dei conta de que algo não estava normal. Como verificar sem que alguém percebesse? Justamente aí o início da falta de ar. Escondidinha, passei a mão por trás e senti a ausência da peça tão importante para as meninas, afinal se usava vestido. Senti um frio na barriga. Um medo foi tomando conta de mim. Mas aí veio junto com esse sentimento uma vontade enorme de rir, e o fiz, até que revelei o motivo das risadas... Foi nesse momento que o ar voltou... o medo passou... e tudo virou história.
Sendo assim eu aprendi a expressar os sentimentos para dominá-los. Para não deixar que eles tirem meu fôlego. Adoro respirar tranquilamente. Há momentos em que eu não gostaria de respirar... Nesses momentos eu escrevo. Papel é pulmão, pena e tinta... ar.
Ana Karina Barbosa Sampaio
Picos, PI. 09.03.2011
2 comentários:
Ufa! Consegui... Recuperei o ar! Esta tua tecitura me deixou sem ar por alguns instantes... E roubou-me o "dizer", emudeci! Que direi agora? Menina, como tu brincas com as palavras! Elas se acomodam no teu falar como um brinquedo na mão de uma criança. Assemelham-se a um pêndulo magnetizado por teus pensamentos expressando simultaneamente seriedade e ludicidade.
Parabéns! Show de blog! Só não consegui seguir. Não encontrei o link, mas, vou continuar procurando
Ana Maria
Olá Ana Maria. Pois é! Vez por outras as aflições me reseram essassupresas. Tranformar o dor em arte! Adorei seu blog!
Postar um comentário